Estranhamento. Essa é a palavra
que define essa primeira página do diário, define a disciplina e todas as
reflexões que eu vou fazer. Hoje, 28 de agosto, significa que em três semanas
de aula muita coisa aconteceu e tudo se resume a estranhamento. A primeira aula
que eu fui já me dei de cara com trechos do livro Holocausto Brasileiro da
autora Daniela Arbex pra eu sentir o incômodo do estranhamento. Estou repetindo
a palavra-chave pra ver se fica mais comum, mas nunca fica. Só fica mais
estranha. A vantagem ou desvantagem de escrever no computador é que dá pra
realocar, apagar e rescrever mais fácil. Mas vou tentar ser um pouco mais associação-livre
do que artigo-científico-referente-à- parte-prática-da-disciplina.
Eu sei que tudo que eu vier a
expressar tem base em tudo que eu já li e refleti nesses 4 anos de curso de
psicologia. Tudo isso não precisa ter um objetivo formulado e completo. Não preciso
descrever aqui pra quê isso vai servir, porque eu ainda não estou no futuro pra
dizer se serviu de alguma coisa. A única coisa garantida com essa minha escolha
é a minha nota na disciplina :P. escolhi ter a nota, escolhi pegar a
disciplina, escolhi não trancar, escolhi tornar público as minhas reflexões num
blog. Eu tive liberdade e responsabilidade, habilidade de responder o que me
foi exposto. Essa coisa simples – minha habilidade de responder, que parece tão
constituinte da minha condição humana é o motivo principal do meu estranhamento.
Estranhar que existem certas pessoas que não tem espaço para exercerem suas habilidades
de responder. Essas pessoas não são consideradas capazes. Isso! , os
loucos\dementes\incapazes\doidos\impuros\anormais... e por aí vai.
Agora eu releio tudo pra ver se
estou fazendo sentido. A academia me ensinou isso: me questionar se estou
fazendo sentido. O que eu digo faz sentido para as pessoas que vão ler? Já estou
treinada a uma cadência “natural” de escrita. Todo mundo “sabe” que os loucos
não fazem sentido. Então eu tenho que mostrar linearidade pra não ser
categorizada como sem-sentido, porque tem valência negativa os outros me
acharem incapaz.
Esse parece ser o panorama geral
das minhas concepções nesse início de semestre. Tenho plena consciência de
estou carregada de preconceitos sobre os loucos, embora já tenha algum
conhecimento da reforma psiquiátrica. Escrever sobre tudo isso parece ser uma
boa ideia.
ps. Acabo de recordar que há mais
de 4 anos quando decidi por estudar psicologia o que me movia internamente foram
produções literárias sobre saúde mental. Nada sério. Filmes como Patch Adams,
livros como o O Vendedor de Sonhos. Esse diário pode até ser um retorno da
filha pródiga :P.
Tami,
ResponderExcluirNão há problema em tomar gosto por trair a tradição. Abandonando todos os ditames modernos, aprendi a aceitar minha própria desordem, incerteza, transitoriedade e contradição.
Seu post me fez lembrar um artigo que estou escrevendo. Compartilho com você algumas idéias:
"Escolher a saúde mental como campo de atuação e pesquisa não acontece por acaso. Por esse motivo, compartilharei um pouco sobre o meu trajeto universitário, período em que vivenciei um turbilhão de novos processos de identificação e novas possibilidades de escolha. Logo no início do percurso acadêmico, depararei-me com uma pergunta aparentemente simples, mas carregada de uma enorme complexidade: "quem sou eu?". Esse convite a uma revisão identitária me fez refletir e tornou mais claro alguns agenciamentos, por exemplo: como nos identificamos e somos identificados por um nome, pelo pertencimento a um território ou a uma nacionalidade, por meio de recortes sociais como idade, gênero, raça, classe, e ainda, como somos marcados pelos papéis sociais que desempenhamos. Para responder a essa pergunta, percebi que a reunião de todas essas características, essas partes que me integravam, não pareciam ser suficiente para representar o todo. Preencher uma ficha cadastral mental não me situaria no mundo, nem me definiria. Fui percebendo que eu era mais que a percepção dos outros sobre mim e mais que minha própria percepção. Não era apenas performance pública, nem apenas uma manifestação intra-psíquica. Descobri, finalmente, que eu era movimento. Expandi esse raciocínio à compreensão do ser humano e percebi que a realidade e a virtualidade coexistem em todos nós, pois todos somos carregados de potência."
É muito bom poder ouvir-se, dar esse tempo de reflexão para nós. Ainda que as palavras não façam sentido, é um exercício importante que melhora, inclusive, a nossa disponibilidade de escuta do outro.
*Acabei de ver seu perfil completo..também gosto da música que você escolheu, da Pink