1 de dezembro de 2014

Arte e Saúde Mental

Pelas últimas aulas tivemos o privilégio de ouvir histórias de projetos inspiradores, de pessoas inspiradoras engajadas com a saúde mental. Porque a arte? Porque "o sujeito considerado incapaz e perigoso, pela arte e pela cultura pode ser considerado capaz e sociável"***


O projeto Doida de Pedra veio de Recife pra cá com uma artista que se identificou com o trabalho em hospitais. Ela diz que depois de toda essa experiência, está em elaboração um Espetáculo pós-traumático! Porque? Porque da mesma forma que ela atuou nesses lugares nos dois sentidos   interagindo com os loucos, ela também foi impactada. Nas suas próprias palavras: é sempre uma troca.
Nessa sensibilidade de artista ela enfatiza o contato. Com tato. Corpo presente, sujeito presente em contato. Tudo que acontece na oficina é o efeito do contato de estar presentificável. Esse contato me lembrou muito o momento eu-tu de Buber.
Na oficina recente ela ensina dança cigana. Num sentido além da sensualidade, estamos falando da possibilidade de entrar em contato com o próprio corpo: ela ensina os movimentos, e não a técnica. Não acha legal ter espelho na sala, pois acha melhor se ver pelos outros.

Eu corpo em relação no mundo.



A segunda palestra foi de um psicólogo que veio nos inspirar contando histórias de mosaico e percussão. Já me ganhou na frase "O bom do mosaico é que tem que ser errado". Além disso, a escolha de fazer uma oficina de mosaico foi para abrir a possibilidade de intervenção urbana, de ocupar a cidade. Porque ocupando a cidade, mudamos a antiga opinião da comunidade de grupo-isolado-estranho-de-doidos.
É legal isso de prática de intervenção urbana por ser uma via de mão dupla: da mesma forma que a comunidade antes nos rejeitava, nós não sentíamos bem em ocupar a cidade. Na medida que nós intervimos, a comunidade pode mudar a opinião, e nós nos sentimos muito mais naturalizados em ocupar a cidade, a praça, a parada, que nós intervimos. 
Colocada desse jeito, a oficina de ensinar uma técnica de arte agrega as funções de mostrar a potencialidade das pessoas que percebem que podem sim aprender e realizar, e principalmente - na minha opinião, a mudança de estigma, de identidade. Na mesma linha da questão da importância do trabalho para as pessoas, que o trabalho é a sua identidade, quando alguém tem essa possibilidade de aprender uma técnica, ela pode passar do estigma negativo do diagnóstico para algo positivo subjetivamente saudável.

Outra identidade para o ser no mundo.




*** O texto está permeado de ideias que não são minhas, e sim dos palestrantes!
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18 de outubro de 2014

Consultório de Rua & Política de Redução de danos

Assistimos em sala de aula o INTERESSANTÍSSIMO documentário:


Consultório de Rua: a rua não é um mundo fora do nosso mundo





Recortes do vídeo comentados:

  • dar o acesso ao sujeito de direitos, garantia de direito;
  • Vínculo baseado em confiança; Isso me faz pensar como que a equipe do consultório de rua tem que ir com o que se é, literalmente. Quando você espera lá na sua clínica, ou na sua sala do hospital ou mesmo do CAPS, que venham até você atrás da sua ajuda, você cumpre o seu papel de entendedor, de quem pode ajudar. Agora quando é você o interessado a ir falar com as pessoas na rua vender o seu peixe, "vender" o serviço de saúde, se não entender a dinâmica da rua, não vai rolar nada. Aqui é realmente entrar pra conseguir se comunicar no meio e passar confiança.
  • Atenção primária;
  • Dar a autonomia para aceitar o tratamento; é uma espécie de empoderamento, e o que é empoderamento? Quem não está por dentro de nenhuma luta de alguma minoria política pode não entender muito bem esse termo.  Eis uma boa definição: Significa em geral a ação coletiva desenvolvida pelos indivíduos quando participam de espaços privilegiados de decisões, de consciência social dos direitos sociais.
  • Trabalho de redução de danos em conjunto com o consultório de rua; Acho até que se pode dizer que o próprio consultório de rua já é fruto de uma política de redução de danos. Chegar à compreensão de que esperar as pessoas saírem das ruas e oferecer tratamento depois nunca vai ser satisfatório
  • A rua evidencia coisas... Exigir que as coisas funcionem direito, que se entenda o território de uma outra forma!; Acredito que essa prática do consultório de rua pode fornecer aos moradores de rua o acesso, o acolhimento e o acompanhamento que normalmente eles não teriam. Schmidt e Figueiredo (2009) apontam que estes 3 aspectos devem sem os norteadores da prestação de serviços de saúde.

Como trabalhar no caminho da redução de danos? Existe uma barreira moral, eu diria, quando se expõe as políticas de redução de danos à massa. Eu acredito que seja aquilo que eu li de Foucault lááá no começo do semestre sobre a concepção de "sermos tão bons, benevolentes e cristãos que temos de fazer o  melhor pra vida dessas pessoas que é elas mudarem o comportamento custe o custar: internações, isolamento, internação compulsória, tirar das ruas, por em algum lugar contra a vontade deles, porque na verdade nós sabemos o que é melhor pra eles".

Acontece que a redução de danos chegou à conclusão de que fingir que não existem os problemas não é mais a solução.
Se acabar com as drogas é utópico, pq parece ser uma condição do humano usar substâncias que distorcem a percepção humana, vamos dialogar sobre isso o que podemos proporcionar então?
Gerar outras fontes de prazer/lazer e gerar autocuidado em pequenas doses - silicone no cachimbo pra não queimar a boca>> pra mim isso é como uma ressignificação do vício, ou uso das drogas.

Referência:
SCHMIDT, M.; FIGUEIREDO, A.(2009) Acesso, acolhimento e acompanhamento: três desafios para o cotidiano da clínica em saúde mental. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., v.12, n.1, p.130-40.
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17 de outubro de 2014

O que surgiu de prático das Reformas?

Vou trazer o psiquiatra Paulo Amarante (2007) mais uma vez eu gostei muito desse texto porque neste capítulo ele faz uma síntese de movimentos da reforma psiquiátrica que realmente vão das psiquiatrias reformadas às rupturas com a Psiquiatria (que é o título do capítulo).
Trazendo bem sintético, para falar depois de como isso influenciou sistema aqui no Brasil, Amarante expõe 4 movimentos que foram mais inovadores, que ele separou em 2 grupos mais um:

  • Comunidade terapêutica e Psicoterapia Institucional - essas duas experiências investiram no princípio de que o fracasso estava na forma de gestão do próprio hospital e que a solução, portanto, seria introduzir mudanças na instituição. A Comunidade terapêutica tinha a luta contra a hierarquização ou verticalidade dos papeis sociais, ou seja, defendia um processo de horizontalidade e "democratização" das relações. Já a Psicoterapia Institucional propõe a transversalidade que Amarante entende como o encontro e ao mesmo tempo o confronto dos papeis profissionais e institucionais com o intuito de problematizar as hierarquias e  hegemonias.
  • Psiquiatria de Setor e Psiquiatria Preventiva - acreditavam que o modelo hospitalar estava esgotado, e deveria ser tornado obsoleto com a construção de serviços assistenciais que qualificariam o cuidado terapêutico (hospitais-dia, oficinas terapêuticas, centros de saúde mental, ...). A Psiquiatria de Setor (França) focou em adotar medidas de continuidade terapêutica após a alta hospitalar na tentativa de evitar a reinternação ou mesmo a internação de novos casos. Para isso foram feitos Centros de Saúde Mental em várias regiões para dar esse apoio regionalizado/setorizado. Amarante como bom contextualizador explica como a Psiquiatria Preventiva (EUA) se originou por causa da situação social do país. Ela assumiu a característica de uma proposta de saúde mental comunitária no qual as equipes de saúde mental passaram a exercer um papel de consultores comunitários, identificando em intervindo em crises individuais, familiares e sociais.
  • ♥ Antipsiquiatria e Psiquiatria Democrática ♥ - reforma só não é suficiente: ambas consideram que a questão está no modelo científico psiquiátrico. Amarante cita um autor da Antipsiquiatria para resumir a crítica do movimento: "o que é cientificamente correto pode ser eticamente errado" (Laing em Amarante, 2007). A ideia era não objetificar a doença mental como algo, e sim permitir que a pessoa vivenciasse a sua experiência; esta seria por si só, terapêutica na medida em que o sintoma expressaria uma possibilidade de reorganização interior. Agora a Psiquiatria Democrática é a do Basaglia, que tem até post de um filme sobre a realidade depois das implantações dele na Itália. Resumindo beeeem resumido: Influenciado por esses movimentos Franco Basaglia passou a formular um pensamento e uma prática institucional originais voltadas para a ideia de superação do aparato manicomial (tanto a estrutura física, conjunto de saberes e práticas científicas, sociais, jurídicas que tendem a fundamentar a existência de um lugar de isolamento e segregação e patologização da experiência humana).

De acordo com a minha resposta de como eu implantaria um novo plano de ação de saúde mental, eu provavelmente encaixo mais na Antipsiquiatria ou no Psiquiatria Democrática, quem sabe? Preciso estudar mais. ♥

Aconteceram muitas mudanças no Brasil influenciadas por esses e outros movimentos, como em muitos outros países, que levou à criação de uma nova legislação de saúde mental. Tenório (2002) ao sistematizar a reforma psiquiátrica brasileira desde seu início nas décadas de 1980 e 1990, até o ano de 2001 que foi o ano da promulgação da Lei de Saúde Mental - traz essa consideração pessoal:
"Penso que o essencial da reforma são as práticas de cuidado destinadas aos loucos, visando à manutenção do louco na vida social e visando a que ele possa, nos constrangimentos impostos por sua condição psíquica, exercer-se como sujeito. A isso chamo de clínica. E a clínica é uma  ação social."
Ação social. muito além de um atendimento só psicológico, psiquiátrico, ou de assistência social, o que for, entendo que ele quis dizer uma ação mais completa e multifacetada, e aí a gente chega em algumas das propostas brasileiras que nós vimos com detalhes em sala: Centros de Atenção Psicossocial, Residências Terapêuticas, e o Programa de Volta para Casa. Sem dar explicações, mas expor o que chamou a minha atenção, tudo o que é novo é desafiador e difícil mesmo de implantar, mas na minha opinião o Programa de Volta Pra Casa é o mais emaranhado. Isso porque é realmente a prática de que o trabalho e a assistência não é apenas para o usuário do serviço.
Além disso, existem as dificuldades de implantação listadas mesmo no do Ministério da Saúde (2011):
Apesar dos avanços alcançados nos últimos anos, o número de beneficiários do Programa de Volta para Casa ainda é muito baixo – apenas 1/3 do número estimado de pessoas internadas com longa permanência hospitalar no Brasil recebe o benefício. Os processos de desinstitucionalização são complexos, têm um ritmo próprio e ainda enfrentam vários desafios: problemas de documentação dos pacientes, crescimento em ritmo insuficiente das residências terapêuticas, dificuldades para a redução pactuada e planejada de leitos psiquiátricos e ações judiciais.
É o que Tenório resume: "mudar o tratamento dado ao doente mental consiste em duas grandes ações: oferecer uma rede de cuidados que ajude o paciente a viver na comunidade e construir uma atitude nova da sociedade em relação ao doente mental (Capistrano Filho, op. cit.)". Podem parecer duas coisas, mas como ele diz, na verdade é só uma : o agenciamento social da loucura, com valência positiva perante a comunidade. É o aplicar-se a isso né?! Mas aí a gente precisa se unir, agir, e conseguir representação.

ReferÊncias:

Amarante, P. (2007). Das psiquiatrias reformadas às rupturas com a psiquiatria. In: Amarante, P. Saúde Mental e atenção psicossocial. (37-60). Rio de Janeiro: Fiocruz.

Ministério da Saúde (2011)Relatório de Gestão 2007-2010. Saúde Mental no SUS: as novas fronteiras da Reforma Psiquiátrica.

Tenório, F. (2002). A Reforma Psiquiátrica Brasileira, da Década de 1980 aos Dias Atuais: História e Conceitos. História, Ciências, Saúde-Manguinhos. 9(1) 25-29. Rio de Janeiro
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Dá pra fazer - (2008)


Título Original: Si può fare
País de Origem: Itália
Gênero: Drama/ Comédia
Tempo de Duração: 110 minutos
Ano de Lançamento: 2008
Direção: Giulio Manfredonia

O texto a seguir são algumas correlações do filme com os termos e os conhecimentos adquiridos.


-Nós nos chamamos Cooperativa 180 em homenagem à lei Basaglia. Como deve saber, ela fechou os hospícios, deixou os loucos livres. Assim, se as famílias os levam de volta, elas enlouquecem também. E se não os levam, fazem o que?
- Não sei
- Exato! Ninguém sabe.

 no primeiro contato o cara já propõe uma horizontalidade – “somos colegas”
É engraçado como mesmo estando um pouco fora de lugar, Nello quer tratar os doentes  como se fosse qualquer outro grupo de pessoas que precisam de um trabalho. É interessante a cena que ele acaba de levar um soco e não quer dizer pro médico quem foi, porque ele trata os pacientes como qualquer outro grupo que esteja trabalhando com ele, mas o médico ainda os quer categorizar como pacientes, e nada além disso. Pra mim é aquela questão de reducionismo ou essencialização: que significa pegar um aspecto, uma característica, e isso ser definidor em todos os aspectos do ser humano. Obviamente Nello está preocupado com o que eles podem produzir, e até no novo acordo deles tem a cláusula " diminuir a dose dos remédios para ser tratado como um trabalhador e não como um doente mental.
Não dá pra saber se a ida de Nello ao enterro foi pra saber se eles conseguiam se virar, mas aí está um aspecto muito importante das novas formas de tratamento: dar espaço para que haja desenvolvimento/crescimento de autonomia.

A frase do médico "Não se cura doença mental nunca" que implica em "não é possível reduzir as doses dos remédios" exemplifica o paradigma do que é saúde, em saúde mental. Nello como alguém que não é da área da saúde, representa a máxima o trabalho dignifica o homem, no sentido de que a atividade fortalece uma subjetividade e transforma sendo um movimento de melhora para os pacientes. Já o médico parece estar apenas no modelo biológico da doença: esse corpo precisa de tal quantidade de remédio, e sempre irá precisar para funcionar adequadamente. Acho que o paradigma está em o que é funcionar adequadamente. 

Uma definição de saúde mental: 
A saúde mental é definida como um estado de bem-estar em que cada indivíduo percebe o seu próprio potencial, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera, e é capaz de fazer uma contribuição para seu ou sua comunidade.

 Obviamente a redução das doses traria novos desafios. As respostas e os comportamentos são diferentes, as pessoas agora precisam estar por dentro das regras morais e sociais, pq agora são capazes de responder a elas. É a questão da responsabilidade e liberdade: se eu sou capaz de responder eu tenho a liberdade de como vou responder.
Então chega a hora de lidar com a família. A cena da mãe Gigio fazendo o discurso do doente mental infantilizado, que nunca será adulto nem pleno é algo bem complicado. É a questão de as pessoas mais importantes para os usuários - que são a família - não acreditam que eles possam realmente ter autonomia. É muito sociocultural e delicado tentar interferir. É similar ao caso de pais de pessoas com síndrome de Down não aceitarem que eles tenham relacionamentos fora da família, e pais que aprovam e deixam os filhos constituírem famílias. Por isso que a família tem que ser incluída no processo, por isso que o tratamento e o acompanhamento não é apenas para o usuário/paciente. Se a família participar e cooperar, provável é fazer novos ajustes e novas significações em conjunto.
Encerrando minhas considerações sobre o filme, na cena sobre o trabalho em Paris que irá fazê-los crescer como cooperativa, eu entendo o aspecto de que Nello estava propondo algo muito melhor em custo-benefício, e eles gozando do direito de sócios, não concordaram porque não era a demanda deles. Sei que pode exemplificar quando os técnicos/especialistas querem fazer grandes e boas realizações, mas pode não ser o que o usuário/paciente quer. Simples assim. 

O que chamou a minha atenção foi a falta de empatia e solidariedade, digamos. Mesmo quando Nello diz que o sacrifício desse trabalho ajudaria a tirar muito mais gente de manicômios, ninguém titubeia, ninguém aceita abrir mão do salário exceto um dos "novos colocadores" que teve essa oportunidade. Me fez pensar em como construir valores é algo mais difícil do se pensa. O médico e Nello possuem um sistema de valores e de moral que os leva a querer impulsionar o alcance das suas ações baseados em valores de empatia, de pensar no próximo, de ajudar outros. Mas acontece que o primeiro contato de Nello com os sócios foi mostrar que eles podem ser trabalhadores que ganham seu próprio dinheiro e gastam como quiserem. Esse foi o primeiro valor que ele transmitiu. Isso tem tudo a ver com nossa economia de hoje: como ser individualista e entrar no mercado de trabalho "para vencer", e ser também solidário e ajudar os outros? Qual eu devo priorizar? Como eu devo equilibrar? Creio que essa situação reflete a crise moral do nosso sistema econômico capitalista. Óbvio que não se resume a isso, mas pra mim a cena ilustra bem.


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