Trazendo bem sintético, para falar depois de como isso influenciou sistema aqui no Brasil, Amarante expõe 4 movimentos que foram mais inovadores, que ele separou em 2 grupos mais um:
- Comunidade terapêutica e Psicoterapia Institucional - essas duas experiências investiram no princípio de que o fracasso estava na forma de gestão do próprio hospital e que a solução, portanto, seria introduzir mudanças na instituição. A Comunidade terapêutica tinha a luta contra a hierarquização ou verticalidade dos papeis sociais, ou seja, defendia um processo de horizontalidade e "democratização" das relações. Já a Psicoterapia Institucional propõe a transversalidade que Amarante entende como o encontro e ao mesmo tempo o confronto dos papeis profissionais e institucionais com o intuito de problematizar as hierarquias e hegemonias.
- Psiquiatria de Setor e Psiquiatria Preventiva - acreditavam que o modelo hospitalar estava esgotado, e deveria ser tornado obsoleto com a construção de serviços assistenciais que qualificariam o cuidado terapêutico (hospitais-dia, oficinas terapêuticas, centros de saúde mental, ...). A Psiquiatria de Setor (França) focou em adotar medidas de continuidade terapêutica após a alta hospitalar na tentativa de evitar a reinternação ou mesmo a internação de novos casos. Para isso foram feitos Centros de Saúde Mental em várias regiões para dar esse apoio regionalizado/setorizado. Amarante como bom contextualizador explica como a Psiquiatria Preventiva (EUA) se originou por causa da situação social do país. Ela assumiu a característica de uma proposta de saúde mental comunitária no qual as equipes de saúde mental passaram a exercer um papel de consultores comunitários, identificando em intervindo em crises individuais, familiares e sociais.
- ♥ Antipsiquiatria e Psiquiatria Democrática ♥ - reforma só não é suficiente: ambas consideram que a questão está no modelo científico psiquiátrico. Amarante cita um autor da Antipsiquiatria para resumir a crítica do movimento: "o que é cientificamente correto pode ser eticamente errado" (Laing em Amarante, 2007). A ideia era não objetificar a doença mental como algo, e sim permitir que a pessoa vivenciasse a sua experiência; esta seria por si só, terapêutica na medida em que o sintoma expressaria uma possibilidade de reorganização interior. Agora a Psiquiatria Democrática é a do Basaglia, que tem até post de um filme sobre a realidade depois das implantações dele na Itália. Resumindo beeeem resumido: Influenciado por esses movimentos Franco Basaglia passou a formular um pensamento e uma prática institucional originais voltadas para a ideia de superação do aparato manicomial (tanto a estrutura física, conjunto de saberes e práticas científicas, sociais, jurídicas que tendem a fundamentar a existência de um lugar de isolamento e segregação e patologização da experiência humana).
De acordo com a minha resposta de como eu implantaria um novo plano de ação de saúde mental, eu provavelmente encaixo mais na Antipsiquiatria ou no Psiquiatria Democrática, quem sabe? Preciso estudar mais. ♥
Aconteceram muitas mudanças no Brasil influenciadas por esses e outros movimentos, como em muitos outros países, que levou à criação de uma nova legislação de saúde mental. Tenório (2002) ao sistematizar a reforma psiquiátrica brasileira desde seu início nas décadas de 1980 e 1990, até o ano de 2001 que foi o ano da promulgação da Lei de Saúde Mental - traz essa consideração pessoal:
"Penso que o essencial da reforma são as práticas de cuidado destinadas aos loucos, visando à manutenção do louco na vida social e visando a que ele possa, nos constrangimentos impostos por sua condição psíquica, exercer-se como sujeito. A isso chamo de clínica. E a clínica é uma ação social."
Ação social. muito além de um atendimento só psicológico, psiquiátrico, ou de assistência social, o que for, entendo que ele quis dizer uma ação mais completa e multifacetada, e aí a gente chega em algumas das propostas brasileiras que nós vimos com detalhes em sala: Centros de Atenção Psicossocial, Residências Terapêuticas, e o Programa de Volta para Casa. Sem dar explicações, mas expor o que chamou a minha atenção, tudo o que é novo é desafiador e difícil mesmo de implantar, mas na minha opinião o Programa de Volta Pra Casa é o mais emaranhado. Isso porque é realmente a prática de que o trabalho e a assistência não é apenas para o usuário do serviço.
Além disso, existem as dificuldades de implantação listadas mesmo no do Ministério da Saúde (2011):
Apesar dos avanços alcançados nos últimos anos, o número de beneficiários do Programa de Volta para Casa ainda é muito baixo – apenas 1/3 do número estimado de pessoas internadas com longa permanência hospitalar no Brasil recebe o benefício. Os processos de desinstitucionalização são complexos, têm um ritmo próprio e ainda enfrentam vários desafios: problemas de documentação dos pacientes, crescimento em ritmo insuficiente das residências terapêuticas, dificuldades para a redução pactuada e planejada de leitos psiquiátricos e ações judiciais.
É o que Tenório resume: "mudar o tratamento dado ao doente mental consiste em duas grandes ações: oferecer uma rede de cuidados que ajude o paciente a viver na comunidade e construir uma atitude nova da sociedade em relação ao doente mental (Capistrano Filho, op. cit.)". Podem parecer duas coisas, mas como ele diz, na verdade é só uma : o agenciamento social da loucura, com valência positiva perante a comunidade. É o aplicar-se a isso né?! Mas aí a gente precisa se unir, agir, e conseguir representação.
ReferÊncias:
Amarante, P. (2007). Das psiquiatrias reformadas às rupturas com a psiquiatria. In: Amarante, P. Saúde Mental e atenção psicossocial. (37-60). Rio de Janeiro: Fiocruz.
Ministério da Saúde (2011)Relatório de Gestão 2007-2010. Saúde Mental no SUS: as novas fronteiras da Reforma Psiquiátrica.
Tenório, F. (2002). A Reforma Psiquiátrica Brasileira, da Década de 1980 aos Dias Atuais: História e Conceitos. História, Ciências, Saúde-Manguinhos. 9(1) 25-29. Rio de Janeiro
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