12 de outubro de 2014

quais são os caminhos para reverter esse sistema de razão doente?

Esse sistema de razão doente aka also known as “você promove a cura ou você simplesmente desumaniza até que não faça nem mais sentido curar?”.

Eu tenho uma visão consciente de que no nosso mundo super-capital não vai acontecer nada se não for interesse de quem possui/comanda/articula poder aquisitivo/dinheiro/condições financeiras. É aquela coisa que todo mundo já ouviu falar por aí “muito pra poucos, pouco pra muitos e nada para a maioria”. Embora no século passado tenha havido um grande movimento de valorização e reconhecimento da força dos muitos e da maioria, parece que quem sabe disso somos nós, o pessoal da elite acadêmica que tem acesso a uma boa aula de história e geografia no ensino médio e nos cursinhos pra passar no vestibular, e chega até numa universidade. Não to defendendo a bandeira do “estamos fadados a isso”, mas estou deixando claro que estou plenamente consciente de que reverter um sistema de razão doente só é possível com a confluência de vários fatores favoráveis como alguma forma de apoio de entidade com poder aquisitivo + um tipo de conjunto de valores + momento certo da história + rebeldia competente + apoio da massa + interesse político + ... + ... Nesse processo todo eu vejo que o meu papel nessa história é a rebeldia competente.
Eu ouvi esse termo pela professora Regina Pedroza de psicologia escolar no quinto semestre. O campo da psi escolar é outro que bate de frente o tempo todo. Ela estava citando Paulo Freire que levava a bandeira da pedagogia rebelde/da indignação:
Em março de 1997, um grupo de jovens de Brasília ateou fogo e matou um índio pataxó. Paulo Freire ficou muito impressionado comeste horror. E se perguntava por que chegamos a tamanha barbárie. As causas são múltiplas: há a mídia, a escola, a sociedade... todos somos responsáveis. Mas há a impunidade que permite, sobretudo às classes poderosas, fazer quase tudo oque quiserem sem ser punidas. Raramente são punidas. Poucos são os ricos que estão nas cadeias. Por isso precisamos dizer "não pode" sem ter medo de sermos antidemocráticos. Há o que pode e o que não pode ser feito. Diante da injustiça, da impunidade e da barbárie, precisamos de uma pedagogia da indignação. Dizer "não" provoca conhecimento. O"não" desacomoda, incomoda, desinstala. Obriga-nos a pesquisar. Dizer"não" é afirmar-se como "eu". É buscar a ética, é valor, é postura. Paulo Freire nos falava com frequência de uma pedagogia da rebeldia.



 Então eu tenho na mão a faca e o queijo: sei que reverter um sistema social é impossível para uma parte apenas, e é por isso que tem que ser em rede, em conjunto. Sei também que não adianta vociferar, brigar, achar que estar errado e não ter uma rebeldia competente de buscar/tentar/pesquisar/conceitualizar/afirmar-se, tudo isso. 
Desses ingredientes surgem as pessoas das reformas: a questão sempre é sobre o meu ser faz sentido, e eu quero fazer ter sentido mantendo o sistema ou tentado mudar o sistema? Acho que essa concepção embora seja apenas o primeiro passo já é um grande passo.
Já chega de teoria, agora na prática, na vera o que eu faria? Hipoteticamente eu sou a nova chefe de saúde mental no Brasil e estão esperando o meu plano de ação pra implantar amanhã, qual é a minha ideia? 
Sinceramente só respondo porque é uma situação hipotética: Se a gente já chegou à conclusão de que todo mundo tem direito a ser gente e é fora dos muros e dos leitos que isso acontece, o que eu proporia agora é uma ação gestáltica fenomenológica ao lidar com os pacientes. O que nós temos é o aqui e o agora, e eu no encontro com você paciente vou fazer o esforço de não jogar em cima de você todos os meus conhecimentos prévios e considerações, e vou voltar às coisas mesmas de me encontrar com você: uma pessoa, um ser no mundo, um movimento único, nunca experienciado antes. Sem te explicar, apenas te descrever, e depois te dar sentido.
Provavelmente os administradores iriam me olhar assim: WTF are you talking about???? E é por isso que eu precisaria de alguém com articulação política, econômica, científica pra me dar respaldo, assim as partes compondo o todo que é mais que a soma das partes. Todos nós, essas partes teríamos que ter um pensamento integrado (representar o todo), mas só juntos compomos o todo que no fim chega a ser muito mais que cada um separado em sua articulação individualizada.
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PS 1: Não sei se eu fui clara, os conceitos da gestalt terapia ainda estão assentando em mim, então não sei se pra alguém de fora isso só parece uma grande bagunça, mas foi interessante ter que pensar em algo mais direto.
PS 2: Eu tentei falar sobre a reforma psiquiátrica, mas minha mente me levou pra outro lugar, então fica pro próximo :)

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