17 de outubro de 2014

Dá pra fazer - (2008)


Título Original: Si può fare
País de Origem: Itália
Gênero: Drama/ Comédia
Tempo de Duração: 110 minutos
Ano de Lançamento: 2008
Direção: Giulio Manfredonia

O texto a seguir são algumas correlações do filme com os termos e os conhecimentos adquiridos.


-Nós nos chamamos Cooperativa 180 em homenagem à lei Basaglia. Como deve saber, ela fechou os hospícios, deixou os loucos livres. Assim, se as famílias os levam de volta, elas enlouquecem também. E se não os levam, fazem o que?
- Não sei
- Exato! Ninguém sabe.

 no primeiro contato o cara já propõe uma horizontalidade – “somos colegas”
É engraçado como mesmo estando um pouco fora de lugar, Nello quer tratar os doentes  como se fosse qualquer outro grupo de pessoas que precisam de um trabalho. É interessante a cena que ele acaba de levar um soco e não quer dizer pro médico quem foi, porque ele trata os pacientes como qualquer outro grupo que esteja trabalhando com ele, mas o médico ainda os quer categorizar como pacientes, e nada além disso. Pra mim é aquela questão de reducionismo ou essencialização: que significa pegar um aspecto, uma característica, e isso ser definidor em todos os aspectos do ser humano. Obviamente Nello está preocupado com o que eles podem produzir, e até no novo acordo deles tem a cláusula " diminuir a dose dos remédios para ser tratado como um trabalhador e não como um doente mental.
Não dá pra saber se a ida de Nello ao enterro foi pra saber se eles conseguiam se virar, mas aí está um aspecto muito importante das novas formas de tratamento: dar espaço para que haja desenvolvimento/crescimento de autonomia.

A frase do médico "Não se cura doença mental nunca" que implica em "não é possível reduzir as doses dos remédios" exemplifica o paradigma do que é saúde, em saúde mental. Nello como alguém que não é da área da saúde, representa a máxima o trabalho dignifica o homem, no sentido de que a atividade fortalece uma subjetividade e transforma sendo um movimento de melhora para os pacientes. Já o médico parece estar apenas no modelo biológico da doença: esse corpo precisa de tal quantidade de remédio, e sempre irá precisar para funcionar adequadamente. Acho que o paradigma está em o que é funcionar adequadamente. 

Uma definição de saúde mental: 
A saúde mental é definida como um estado de bem-estar em que cada indivíduo percebe o seu próprio potencial, pode fazer face ao stress normal da vida, trabalhar de forma produtiva e frutífera, e é capaz de fazer uma contribuição para seu ou sua comunidade.

 Obviamente a redução das doses traria novos desafios. As respostas e os comportamentos são diferentes, as pessoas agora precisam estar por dentro das regras morais e sociais, pq agora são capazes de responder a elas. É a questão da responsabilidade e liberdade: se eu sou capaz de responder eu tenho a liberdade de como vou responder.
Então chega a hora de lidar com a família. A cena da mãe Gigio fazendo o discurso do doente mental infantilizado, que nunca será adulto nem pleno é algo bem complicado. É a questão de as pessoas mais importantes para os usuários - que são a família - não acreditam que eles possam realmente ter autonomia. É muito sociocultural e delicado tentar interferir. É similar ao caso de pais de pessoas com síndrome de Down não aceitarem que eles tenham relacionamentos fora da família, e pais que aprovam e deixam os filhos constituírem famílias. Por isso que a família tem que ser incluída no processo, por isso que o tratamento e o acompanhamento não é apenas para o usuário/paciente. Se a família participar e cooperar, provável é fazer novos ajustes e novas significações em conjunto.
Encerrando minhas considerações sobre o filme, na cena sobre o trabalho em Paris que irá fazê-los crescer como cooperativa, eu entendo o aspecto de que Nello estava propondo algo muito melhor em custo-benefício, e eles gozando do direito de sócios, não concordaram porque não era a demanda deles. Sei que pode exemplificar quando os técnicos/especialistas querem fazer grandes e boas realizações, mas pode não ser o que o usuário/paciente quer. Simples assim. 

O que chamou a minha atenção foi a falta de empatia e solidariedade, digamos. Mesmo quando Nello diz que o sacrifício desse trabalho ajudaria a tirar muito mais gente de manicômios, ninguém titubeia, ninguém aceita abrir mão do salário exceto um dos "novos colocadores" que teve essa oportunidade. Me fez pensar em como construir valores é algo mais difícil do se pensa. O médico e Nello possuem um sistema de valores e de moral que os leva a querer impulsionar o alcance das suas ações baseados em valores de empatia, de pensar no próximo, de ajudar outros. Mas acontece que o primeiro contato de Nello com os sócios foi mostrar que eles podem ser trabalhadores que ganham seu próprio dinheiro e gastam como quiserem. Esse foi o primeiro valor que ele transmitiu. Isso tem tudo a ver com nossa economia de hoje: como ser individualista e entrar no mercado de trabalho "para vencer", e ser também solidário e ajudar os outros? Qual eu devo priorizar? Como eu devo equilibrar? Creio que essa situação reflete a crise moral do nosso sistema econômico capitalista. Óbvio que não se resume a isso, mas pra mim a cena ilustra bem.


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