Quando se fala de saúde mental se fala de Michel Foucault. É quase uma associação direta: “não sei muito sobre saúde mental, mas sei que o Foucault escreveu algo sobre”. Quando comentei aleatoriamente que estava lendo este autor, me disseram assim: “Ah, o cara que foi estudar os loucos e ficou louco estudando eles?”. Como o próprio Foucault (1978) disse em seu prefácio:
Gostaria que um livro, pelo menos da parte de quem o escreveu, nada fosse além das frases de que efeito; que ele não se desdobrasse nesse primeiro simulacro de si mesmo que é um prefácio, e que pretende oferecer sua lei a todos que, no futuro, venham a formar-se a partir dele.
Ou seja: cada um lê, entra em contato, e se apropria do que leu e
transforma em algo que faça sentido para o seu “sistema interno”. Para discutir
e ressignificar a história do loucura da Idade Média como ele faz nessa obra, é
imprescindível falar sobre a maior instituição de controle da época, a igreja
cristã. E o que isso tudo tem a ver? Tudo. Tudo que foi feito e idealizado em
nome da Igreja, em nome de Deus, foi feito mediante pessoas que entraram em
contato com a doutrina cristã, com a realidade das pessoas da época, e
definiram assim práticas que fizessem sentido pra eles próprios.
Hoje, muitos anos depois, não cabe a mim tacar pedra nas igrejas ou no
Papa, que é uma imagem que perdura desde essa época. Acho importante ter a
compreensão de que por mais que tenham sido práticas abomináveis e inumanas,
não tinha Tamires vivendo lá para viver como aquelas pessoas viviam, sob os
dogmas e estigmas da época, para poder julgá-los agora. A Tamires do século 21
que aprendeu a analisar e criticar, e o Foucault do século 20 que visitou essa
história com um olhar diferente e denunciatório não teriam essa capacidade se
não fosse o Zeigeist.
O que raios é zeitgeist? É uma palavra alemã que significa espírito
de época, espírito do tempo ou sinal dos tempos. Se o Zeitgeist é o conjunto do clima intelectual e cultural do
mundo, numa certa época, ou as características genéricas de um determinado
período de tempo, acredito que isso faça sentido não apenas no meio científico,
mas em qualquer campo que haja a formulação de ideias, leis, hábitos, dogmas,
costumes e por aí vai.
Para explicar o contexto da ideia de internamento,
Foucault traz o histórico relacionado ao trabalho. Acidamente comenta:
"Antes de ter o sentido médico que lhe atribuímos, ou que pelo menos gostamos de supor que tem, o internamento foi exigido por razões bem diversas da preocupação com a cura. O que o tornou necessário foi um imperativo de trabalho. Nossa filantropia bem que gostaria de reconhecer os signos de uma benevolência para com a doença, lá onde se nota apenas a condenação do ociosidade."
O que faz com que nós agora tenhamos essa
filantropia? Por que nós precisamos ver que estamos sendo benevolentes? Ver as
coisas na sua origem é sempre um choque para o nosso muro de valores atuais bem
feitinho, rebocado e decorado. Não é minha intenção resumir necessariamente o
texto, pra deixar quem gosta de história com vontade de ler o livro. Apenas dar
as pinceladas que me provocaram estranhamento a fim de que você leitor repense,
pense e ressignifique.
Então Foucault (1978) nos traz à luz de que
inicialmente a tarefa da instituição de internação tinha a tarefa de impedir a
mendicância e a ociosidade, bem como as fontes de todas as desordens. A pessoa
sem emprego tem o direito de ser alimentado se aceitar a coação física e moral
do internamento (p. 74).
Fazendo um recorta e cola dessa obra eu realizei
esse mural:
Refazer a história desse processo de banimento é fazer a arqueologia de uma alienação no qual a internação designa um evento
decisivo: o momento em que a loucura é percebida no horizonte social da
pobreza, da incapacidade para o trabalho, da impossibilidade de integrar-se no
grupo. O internamento aproximou, num campo unitário, personagens e valores
entre os quais as culturas anteriores não tinham percebido nenhuma semelhança a
partir de uma reorganização do mundo ético, novas linhas de divisão entre o bem
e o mal, o reconhecido e o condenado, e o estabelecimento de novas normas na integração
social.
Além dos ociosos e desempregados
outras experiências passam a ser banidas para o exílio onde estarão próximas da
loucura – formando com isso um mundo uniforme do Desatino. Resumindo: todas essas experiências dizem respeito à
sexualidade em suas relações com a organização da família burguesa, nas novas
relações que começam a se instaurar entre o pensamento livre e o sistema de
paixões.
Como eu me sinto depois disso tudo? Como você se sente de saber que
todas as suas concepções sobre loucura, loucos, doentes mentais foram forjadas
nesse nosso maravilhoso mundo ocidental que valoriza o trabalho como
dispositivo de controle de pobres?
Na verdade, pense como isso te causa revolta e hoje ainda é a mesma
coisa. MESMA. COISA. Tem gente que a ama a Ciência por ter “livrado a
humanidade do jugo de culpa que a Igreja impôs”, mas que ciência é essa que
continua sendo dispositivo de controle?
Referência:
Foucault, M. (1978). História da loucura na Idade Clássica (Netto,
J. T.C., Trad.). São Paulo: Perspectiva. (Obra Original publicada em 1972).
ps. e ainda tem gente que não acredita na teoria da conspiração. to brincando! ou será que não?
ps. e ainda tem gente que não acredita na teoria da conspiração. to brincando! ou será que não?
Certamente você já assistiu o vídeo no Youtube, Zeigeist. O que achou?
ResponderExcluirLembrei-me da frase no quadro: "como tão pouco saber pode gerar tanto poder?"
E ainda: as ciências humanas assim se desenvolvem, não para conhecer o humano, mas para dominá-lo melhor.
Foucault
Na verdade não, ainda não vi.. me deparei com essa palavra no primeiro semestre e sempre tive um interesse nela, mas agora vou procurar para assistir :D
ResponderExcluirhttps://www.youtube.com/watch?v=LUNUXYHiqzg ;)
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