O título do filme no Brasil é Um estranho no ninho. Começando pela
sinopse do primeiro site que aparece na busca do Google "ficha técnica
filme um estranho no ninho"
Atuação brilhante de Jack Nicholson, que interpreta McMurphy, um condenado que é enviado para ser examinado numa instituição de doentes mentais. Lá ele conhece a enfermeira Ratched (Louise Fletcher), pouco sensível e determinada a manter a ordem. McMurphy se opõe às regras, convicto de que a opressão é o pior inimigo dos pacientes. Ele começa a incitar em seus companheiros identidades e idéias próprias, deixando a mensagem de que é possível se libertar mesmo das condições mais opressivas.
Quando eu leio esse final minha mente GRITA: Incrível como uma sinopse
pode mentir tanto sobre um filme!! Mas eu só penso isso depois que eu li e me
apropriei de Foucault e Goffman, e os interpretei de forma que eu faça sentido.
Mas mesmo você que já viu o filme há de concordar que "deixando a mensagem
de que é possível se libertar mesmo das condições mais opressivas" é muito
contra-mão do filme. Se não concordar, eu explico meu ponto de vista. Pra quem
não, um resumo cinematográfico:
Um filme que recebeu tantos prêmios e ficou tão importante na carreira
dos atores que participaram, e a crítica geral nota a luta homem x sistema, mas
em nenhum dos vídeos que eu vi sobre o filme e sobre o livro diz algo parecido
com: nossa, você está vendo como os doente mentais são tratados? não tem mais
humanidade, são despersonalizados! Curioso como quando é um filme sobre
loucura, as interpretações partem para a metáfora homem irreverente contra o
sistema, por que ninguém quer falar dos loucos em si, Deixa velado. Deixa
escondido. Deixa internado. Esse é o mesmo choque de saber que a obra da
Daniela Arbex Holocauto Brasileiro não foi a primeira denúncia do que acontecia
no manicômio (vide reportagem que segue no link).
Para mim o momento mais chocante do filme é quando McMurphy arma e
concretiza todo o esquema para fugir e ainda dar uma festa. Ele havia mostrado
sua revolta para os outros pacientes que não estavam ali por internação
compulsória, e mesmo tendo possibilitado sua fuga, ele não vai embora. Ele acha
ridículo que aqueles caras ali com ele escolhem ficar lá, mas ele mesmo não foi
embora, não fugiu e acabou sendo lobotomizado. Essa é a mensagem passada pra
mim: o que te prende é você mesmo, e se tiraram de você a sua humanidade,
realmente eles te prendem porque você não mais pra onde ir (tem cronograma) nem
quando ir (tem rotina rígida) pra qualquer lugar.
Erving Goffman (1974) descreve esses processos nas chamadas instuições
totais, que ele não define apenas como os hospitais psiquiátricos ou
manicômios, mas também conventos e prisões:
“Qualquer que seja a forma dessas diferentes indignidades, o indivéduo
precisaparticipar de atividades cujas consequências simbólicas são
imcompatíveis comsua concepção do eu. Um exemplo mais difuso desse tipo de
mortificação ocorre quando é obrigado a executar uma rotina diária de vida que
considera estranha a ele – aceitar um papel com o qual não se identifica. (...)
Um exemplo extremo é a prática do campo de concentração, onde os prisioneiros
são obrigados a surrar outros presos.
Goffman dá vários exemplos nauseantes e denunciantes do que são essas
instituições totais na prática. Instituição total é um local de residência e
trabalho onde um grande número de indivíduos com situação semelhante, separados
da sociedade mais ampla por considerável período de tempo, levam uma vida
fechada e formalmente administrada.
À luz de Goffman, a enfermeira do filme representa essa instituição
total que estabelece uma relação de poder tão grande com o indivíduo que ele se
vê incapaz de ultrapassar a autoridade. O termo redesenhar a história de vida
do sujeito que Goffman faz uso parece manipulador e antiético, mas isso é o que
as rotinas e humilhações fazem. “O indivíduo é despido da sua personalidade
real e a personalidade que lhe é induzida, não só pela instituição como por
toda a sociedade”.
Não é só a enfermeira chefe que representa a “mortificadores do eu” das
instituições. Os pais, os familiares, os colegas de escola, todos fazem o
louco, todos fazem o doente mental. Tudo acontece de uma forma tão uniforme que
o próprio interno passa a acreditar piamente e se deixa ser mortificado, se
deixa ser despersonalizado.
Pra mim esse é o grande crime que o filme denuncia: você promove a cura
ou você simplesmente desumaniza até que não faça nem mais sentido curar? Refletir
sobre isso é refletir sobre a prática profissional como um todo.
Referência:
Goffman, E. (1974). Manicômios, prisões e conventos (Leite, D. M., Trad.). São Paulo: Perspectiva. (Obra original publicada em 1961).
Goffman, E. (1974). Manicômios, prisões e conventos (Leite, D. M., Trad.). São Paulo: Perspectiva. (Obra original publicada em 1961).
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirfiz apenas uma correção na minha escrita..
ExcluirCheguei a assistir o documentário sobre o autor do livro que, apesar de ser um romance, trazia muita realidade em suas histórias..
ResponderExcluirSem dúvida, coação moral do internamento tinha como objetivo "não só revelar a doença, mas produzí-la" p.118 (microfísica do poder).
Sobre a sinopse que você selecionou, certamente foi de uma pessoa que não assistiu o filme até o final...A lobotomia ou a morte não é um modo de se libertar das condições opressivas é, na verdade, a manifestação mais radical dessa violência.
Boas reflexões Tami! Gostaria de ouvi-la mais, saber de você quais são os caminhos para reverter esse sistema de razão doente?